Treinamento: investimento esquecido


Apenas 5% da verba destinada à tecnologia pelas empresas com até 100 funcionários são investidos em treinamento. Os dados são do International Data Corporation (IDC) e mostram que o percentual é ainda menor quando considerado o faturamento. Os gastos com esse item variam entre 0,2% e 0,5% da receita bruta anual, bem abaixo do 1% recomendado pelos especialistas da área. “As empresas se preocupam em comprar programas e máquinas de última geração, esquecendo-se de prepara suas equipes para usá-los”, afirma Raul Hara, gerente de Internet Business da Boucinhas & Campos Consultores. De fato, PCs, servidores, sistemas operacionais, soluções de segurança e de desenvolvimento da Web encabeçam a lista dos itens de consumo na área de tecnologia das empresas de pequeno porte. Segundo o IDC Brasil, para cada R$100 investidos em tecnologia, R$ 62 são aplicados em programas e máquinas. O restante é gasto com serviços, que incluem implantação de softwares, suporte e assistência técnica. A qualificação da mão-de-obra ocupa o último lugar na lista de prioridades.

QUESTÃO CULTURAL – Os altos preços cobrados pelas escolas de informática são apontados por muitos empresários como os principais culpados pela falta de treinamento. Instituições de ensino e centros de treinamento para empresas cobram em média R$ 400 para ensinar uma pessoa a trabalhar com planilhas de texto e de cálculo. Cursos mais complexos, que incluem fundamentos de rede, cabeamento estruturado e criação de banco de dados, por sua vez, chegam a custar R$ 2 mil por funcionário. Fabricantes como a Sun Microsystems, Microsiga e Conectiva também oferecem treinamento com certificação reconhecida pelo mercado. Alguns apenas para usuários de suas máquinas ou programas; outros para equipamentos de terceiros, cobrando pelo serviço oferecido. “Além dos preços salgados, há também uma questão cultural”, reforça Egnaldo Paulino, consultor de informática do Sebrae-SP. Muitos empresários ainda acreditam que treinamento é perda de tem e interessa mais ao funcionário do que à empresa. O consultor observa, ainda, que quando a pequena empresa decide qualificar melhor sua mão-de-obra procura geralmente por cursos sobre softwares de gestão, deixando de lado os programas básicos. A maioria acredita que os funcionários já sabem operar essas ferramentas e acaba permitindo que apenas uma fração delas seja utilizada. Com isso, muitas vezes falhas e carências são atribuídas aos softwares ou às máquinas, quando o problema, na verdade, está na má utilização dos recursos. Segundo Sônia Regina Mandarano, coordenadora de atendimento empresarial do Centro de Educação em Informática do Senac-SP, ainda não estão claros, para a maioria dos empresários, as vantagens e os ganhos obtidos com o treinamento. Célio Antunes de Souza, diretor-presidente da Impacta Tecnologia, garante porém que a capacitação dos operadores melhora a produtividade, reduz os erros e aumenta em 30% a utilização do potencial das máquinas e softwares. Aos poucos essa mentalidade começa a mudar. Entre os que remam contra a maré está a Labsynth, empresa do ramo farmacoquímico, com 89 funcionários, localizada em Diadema (SP). O laboratório investe cerca de R$ 80 mil por ano no treinamento de seus empregados e está muito satisfeito com o retorno. “Tiramos maior proveito dos equipamentos e softwares. Não queremos que o computador seja usado como uma máquina de escrever”, afirma o sócio Mário Antônio da Silva Gomes. Este ano, a direção custeou o treinamento de um funcionário para otimizar os procedimentos da rede local e dispensar os serviços de um suporte técnico terceirizado. “Uma pessoa que conheça em detalhes o parque de computadores da empresa tem maior facilidade para encontrar soluções”, afirma o sócio Mário Antônio Gomes. Para o jovem Lázaro José Martins, de 23 anos, que começou como Office-boy na Labsynth e hoje é encarregado da área de informática do laboratório, o treinamento representou um passo importante na carreira. Para a empresa é a garantia de solução rápida para falhas que podem gerar muitos prejuízos.

Fonte: Revista PEGN – Agosto 2002

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